Sempre nessa época do ano, as revistas culturais fazem um balanço do que de melhor aconteceu no cenário cultural. Longe de mim, querer dar uma de crítico por aqui, mesmo porque, não sou especialista em nada, apenas um jornalista em inicio de carreira, e como profissional de tal ofício, gosto de livros, discos, filmes, viagens e bater papo em algum boteco da Paulicéia Desvairada. Infelizmente, dos meus 30 anos que perambulo por essa cidade não só da garoa, mas também do pecado, a nossa imortal Sampa, a nossa enigmática Sin City, ainda não tive um ano no qual pudesse falar de boca cheia, assisti dezenas de peças de teatro, bati cartão no cinema, fui em uma porrada de Shows, li todos os principais livros que foram lançados, quem sabe um dia eu chego lá. Mesmo assim, conferi algumas coisas interessantes por aí, e vou citá-las por aqui numa espécie de retrospectiva particular.
EXPOSIÇÃO: Das exposições que visitei, gostei muito da "Vida louca, Vida Intensa, Uma viagem pela contracultura", que aconteceu lá no Sesc Pompéia. Para um fã e até - em alguns momentos e hábitos - vivenciador da contracultura, creio que não faltou nada nessa amostra, estava tudo representado lá, elementos estéticos e material gráfico dos períodos beat, psicodélico e punk, filmes que retratam os valores e as idéias da contracultura, debates com artistas e intelectuais influenciados pelo movimento. Num dos dias que eu fui, estava o Chacal com a turma de poetas da Nuvem Cigana, recitando seus ácidos versos.
CINEMA: Curti bastante o "Meu nome não é Jhonny". Ótimo filme sobre a história real do cara que foi um dos maiores traficantes do Rio de Janeiro no final da década de 80 e hoje é músico, João Estrela. E mais uma vez o ator Selton Mello tomou conta do papel de maneira incontstável
Acompanho as aventuras do Homem-Morcego desde o tempo em que passava na TV, a série na qual o protagonista era o ator Adam West. Mas dessa vez foi o Coringa que deu as cartas em Batman CAvaleiro das TRevas, Heath Ledger foi a luz em Ghotam City, vou torcer para ele ganhar de maneira póstuma o Óscar desse ano.
MÚSICA: Vibrei! Comemorei com a mesma empolgação que tive com a volta do meu glorioso Corinthians quando voltou para a série A. O retorno do Marcelo Camelo para os braços da boa música brasileira por meio do CD Sóu, foi para exorcizar o pop sem graça que costuma andar à solta na indústria fonográfica. Pra mim, ele é atualmente um dos grandes compositores da MPB, o que dizer de um cara que tem o dom de compor versos como "Solidão, foge que eu te encontro que eu já tenho asa". É o tipo de talento indiscutível.
REVISTA: Dá-lhe Playboy, pois outra volta marcante, mas essa pela veia da cultura dionisíaca, foi a Claudia Ohana fazer o repeteco na revista depois de 20 anos do primeiro ensaio dela.
LITERATURA: Não li nenhum livro que foi lançado esse ano, minha mente só vajou em obras antigas. Destaque para Crack Up de F. S. Fitzgerald, que faz parte daquela coleção de livros de bolsos da editora L&PM. O livro é uma coletânea de textos de Fitzgerald, tem desde ensaios sobre a Era do jazz, passando por relatos de viagens, até pequenas anotações do escritor. Muito bom.
TEATRO: O que falar de uma peça cuja trilha sonora é Chet Baker, uma história sobre cicatrizes e marcas que ficam coladas no tempo. Gostaria de ser um crítico teatral para falar com mais propiedade sobre essa peça, mas como não manjo porra nenhuma, me limito a dizer que gostei bastante. E olha que foi a estréia do poeta Sérgio Mello na dramaturgia.
"Quandos nos encontrarmos de novo/ e formos apresentados como amigos/ não mostre que você me conheceu/ quando eu tinha fome e dependia de uma palavra sua."
Ontem eu peguei o trem para Santo André, fui fazer umas matérias por lá. Tanto na ida quanto na volta, liguei o meu MP3 e entre um rock e um blues escutei Downtown Train de Tom Waits. Gosto muito dessa música. Enquanto viajava no som, fiquei pensando como esse tema, trilhos e trem, são extremamente inspiradores, não é à toa que temos várias obras musicais e literárias que "transitam sob vagões". Por exemplo! Jack London escreveu num ritmo tão acelerado e vibrante como o de um trem, por isso, em suas narrativas os personagens estão sempre saltando nas estações ferroviárias. Tennessee Willians foi outro que bebeu nessa inspiração. Sérgio Sampaio fez uma música linda chamada "Viajei de trem", onde diz "Queria estar perto do que não devo/ E ver meu retrato em alto relevo/ Exposto, sem rosto, em grandes galerias? Cortado em pedaços, servindo em fatias/ Viajei de trem/ Eu viajei de trem". Já o autêntico Adoniran Barbosa misturou samba com poesia na paulistana canção "Trem das Onze". Assim como esses artistas, também sou apaixonado por trilhos, vagões, trem, estações etc e tal. Infelizente não tenho o talento deles para fazer dessa paixão obras de arte. Lamentavelmente, no Brasil, a maioria das linhas ferroviárias estão em regiões suburbanas. Considerando que o país é do tamanho de um continente há pouquíssimas linhas de trem, é uma pena. Há tempos, peguei o trem em Curitiba e fui até o Porto de Paranaguá - litoral paranaense - é uma viagem muito bacana, tão boa que pretendo repetir, na próxima vou a descer a Serra do Mar, escutando "Trem das Sete" do Raul Seixas.